02/12/2009

1978, O ANO DA DISCO MUSIC


Demorou, mas Lucília conseguiu. Finalmente a decoração de Natal da residência dos Arantes estava pronta. Faltava comprar os presentes, principalmente os das crianças, do marido e dos pais. Isabel queria a boneca Pepa, que estava em falta no mercado. Cristina desejava uma colônia da Avon e um par de meias de luréx. Mas, o presente mais fácil seria o de Jorginho: o disco com a trilha sonora internacional da novela Dancin’ Days. Com 13 anos recém-completados, Jorge agora era um adolescente. Ao invés de brinquedos, desejava roupas de presente. Mas, entre uma camisa US Top e o LP de Dancin’ Day, dessa vez ele optou pelo último.
Lucília estava determinada a comprar o LP, mesmo se Jorginho não pedisse. As novelas O Astro e Dancin’Days foram os maiores sucessos de 1978, principalmente esta última. Com Dancin’ Days, Gilberto Braga surfava na onda da discoteca.
Lucília tinha dúvida se as discotecas vieram para ficar ou eram apenas uma moda passageira. O fato é que todos queriam surfar na mesma onda de Gilberto Braga, autor da novela. Até onde lembrava, ela “arrebentou” com o filme Os Embalos de Sábado à Noite, com John Travolta. Aliás, todo garoto queria ser ou ter um pouco de John Travolta. Até Jorginho arriscara alguns passos parecidos com os de Travolta. Ao som de Bee Gees, é claro.
Pensando bem, John Travolta era um gato. E dançava como ninguém. Lucília não acreditava que era o mesmo ator daquele filme do garoto que vivia em uma bolha de plástico. Como era mesmo o nome do filme? O Menino da Bolha de Plástico? Podia ser.
O filme de maior sucesso de 1978 foi a Dama do Lotação, com ninguém menos que Sônia Braga. Lucília não entendia como um filme daqueles podia fazer tanto sucesso. Tudo bem que Sônia Braga era uma grande atriz, mas o filme não era lá essas coisas, não. Ela gostou mesmo foi de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Esse, sim, é que era filme bacana. Além de A Dama do Lotação e Contatos Imediatos, Lucília e o marido assistiram Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (com Reginaldo Faria, que atuava em Dancin’ Days com Sônia Braga) e Noivo Neurórica, Noiva Nervosa. Todos falavam de Guerra nas Estrelas, mas não era possível que fosse tão bom assim. Guerra nas Estrelas tinha cara de filme para adolescente. E se havia uma coisa que Lucília detestava era muito barulho, explosão, “pá-pum”, essas coisa todas… a vontade era de sair do cinema no meio da sessão.
Lucília ainda estava em dúvida sobre qual presente pediria ao marido. Cristina também prometeu um presente. Nesse caso, pediria dois livros. Ela estava louca para ler O Navegante, de Morris West. Mas, pensando bem, Ninguém é uma Ilha e Ainda Resta Uma Esperança, ambos de J. M. Simmel, pareciam interessantes. Tinha também Raízes, do Alex Haley! Como conhecia a minissérie baseada no épico de Haley, Lucília tinha interesse em ler o livro.
Estava decidido: pediria Raízes para o marido e o LP de Os Embalos de Sábado à Noite para Cristina. Lucília adorava a trilha do filme do Travolta, principalmente por causa do Bee Gees. Eles eram demais! Suas músicas prediletas eram Night Fever e Stayn’ Alive.
Bem que o réveillon dos Arantes podia ter Bee Gees como trilha. Melhor: Lucília pegaria alguns discos emprestados da Odete, sua vizinha e faria uma discoteca em casa. Odete tinha vários discos da K-Tel, quase todos com músicas de discoteca. Eram discos como Hit Machine, Disco Fire e Music Machine. Os grupos e cantores “disco” de maior sucesso eram Chic, Sylvester, K.C. & Sunshine Band, Village People, As Frenéticas e Donna Summer. Aliás, o Disc Machine tinha uma música maravilhosa do Morris Albert, aquele brasileiro que cantava em inglês.
Terminada a decoração, faltava dar um jeito na sala. Que bagunça! Lucília precisava organizar os fascículos do Jorginho – ele deu para comprar coleções da Abril Cultural -, os LPs da Cristina (que “amava de paixão” a trilha sonora da novela Estúpido Cúpido, transmitida há pouco tempo pela Globo) e as revistas do marido. Quanta revista! A maioria era Quatro Rodas. Ele estava interessado em comprar um Fiat 147 para substituir o velho Fusca 1500. Lucília preferia automóveis da Volkswagen, talvez uma Variant II ou um Passat. Jorginho e Cristina tentavam fazer a cabeça do pai para que ele comprasse aquele novo Passat, o Surf. Ora, mas o Passat Surf foi feito para o público jovem, não para um senhor de família! O marido insistia no 147 por que era um carro novo, de uma marca nova, desculpas para comprar o carro não faltavam.
Pensando bem, 1978 não foi um ano muito difícil. Dez anos depois da promulgação do Ato Institucional nº 5, o governo dava sinais de que relaxaria a censura. Quer dizer, o regime militar estava, ainda que aos poucos, se tornando mais brando. Quando voltaremos a eleger um presidente? – perguntava Lucília. O assunto do momento nas rodinhas era a anistia política. O povo também não parava de falar no substituto do presidente Geisel. E a morte dos papas? Nunca ocorreu algo semelhante: dois papas mortos no mesmo ano. Quem imaginaria que João Paulo I, substituto do recém-falecido Paulo VI faleceria apenas 30 dias depois de eleito papa? E quem imaginaria que um polonês substituíria João Paulo I? Lucília lembrava que o nome dele era Karol alguma coisa. Um papa polonês. Fazia séculos que a igreja não escolhia um papa não-italiano. João Paulo II, o novo pontífice, parecia simpatico. Se vier ao Brasil, Lucília faria questão de vê-lo pessoalmente. Um papa polonês. Como era simpatico! “Deviam chamá-lo de João de Deus”, pensou.
1978 será para sempre lembrado como o ano da Copa do Mundo da Argentina. O Brasil tinha tudo para ser campeão, só que quem levou a taça foram os anfitriões. Mas, para Lucília, era o ano de Dancin’ Days, das Frenéticas, de Os Embalos de Sábado à Noite, John Travolta e Bee Gees.
Era tarde, havia revistas para organizar, um chão para limpar e a janta por fazer. Os filhos logo estariam em casa.
A decoração até que ficara bonita. Mas, a de 1979 seria melhor e ainda mais bonita. Lucília tinha esperança de que o novo ano seria o prenúncio de tempos melhores. De preferência com a onda disco. Ela não podia ser assim tão passageira.

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