23/02/2010

AS BUZINAS E OS CASSINOS DO CHACRINHA


Chacrinha foi, ao lado de Hebe Camargo, Silvio Santos, Raul Gil e dos saudosos J. Silvestre, Bolinha e Flávio Cavalcanti, um dos maiores apresentadores da televisão brasileira. Foi registrado como José Abelardo Barbosa de Medeiros na cidade de Surubim, em Pernambuco. Ainda criança, mudou-se para Campina Grande, Paraíba, e adolescente, para Recife, em Pernambuco. Ingressou na faculdade de medicina, mas, três anos depois, acabou desistindo da carreira para entrar de cabeça na profissão que sempre teve vontade de exercer: radialista.
A carreira de radialista começou no Recife, em 1935. Anos mais tarde, já no Rio de Janeiro, lançou na Rádio Clube de Niterói um programa carnavalesco nomeado Rei Momo na Chacrinha. Vem daí o apelido Chacrinha, que Abelardo Barbosa assumiu com orgulho.
Seu primeiro programa de TV estreou na segunda metade dos anos 50, na extinta TV Tupi. Chamava-se Discoteca do Chacrinha. O sucesso foi tamanho que Abelardo passou a ser disputado por diversas emissoras, como as antigas TV Excelsior e TV Rio. Em 1967, assinou contrato com a jovem TV Globo, onde apresentou dois programas ao mesmo tempo: A Hora da Buzina (mais tarde Buzina do Chacrinha) e Discoteca do Chacrinha.
Chacrinha permaneceu na Rede Globo até 1972, quando voltou para a TV Tupi. Permaneceu lá até 1978, ano em que se transferiu para a TV Bandeirantes. O retorno a Globo aconteceu em 1982, com o Cassino do Chacrinha, programa que comandaria até a sua morte, em 1988.
Desde a estréia no rádio em 1935 até a morte na segunda metade dos anos 80, foram 53 anos de carreira. Seus programas sempre tiveram forte apelo popular. Quase todos os cantores e grupos musicais dos anos 50, 60, 70 e 80 passaram pelos programas que Chacrinha apresentou na televisão. Ele ajudou a lançar a jovem Celly Campelo e a projetar a carreira de grandes ídolos como Roberto Carlos. Movimentos como a Jovem Guarda e Tropicália também foram por ele incentivados.
Quem acompanhou Chacrinha ao longo dos anos sabe o quanto ele tinha estilo próprio e como mantinha uma maneira peculiar de se comunicar com o público. O modo como se vestia, os bordões que criava e mesmo o cenário dos programas refletiam aquilo que ele era: um personagem ligado ao povo e aos ícones da música brasileira, dos mais populares aos mais "cabeça".
Chacrinha costumava se apresentar de cartola decorada com lantejoulas (ou algo parecido) e plumas. Mantinha uma espécie de disco de telefone pendurado no pescoço e uma buzina à mão. A buzina era usada para reprovar os aspirantes a cantor de seus concursos de calouros. De vez em quando, fantasiava-se de baiana, Mulher-Maravilha ou noiva.
Além do concurso de calouros, o chamado Velho Guerreiro promovia os mais inusitados concursos. Alguns eram realmente bizarros - como o concurso do cachorro com mais pulgas do Brasil - e outros, nem tanto. Quem assistiu seu programa deve se lembrar de disputas como o garçom mais simpático, a mais bela comerciária, a mais bonita empregada doméstica, a Miss Vovó, a mais rápida datilógrafa e a mais bela criança do Brasil. Foi no concurso da mais bela criança que o Brasil ouviu pela primeira vez o nome de uma garotinha loira e futura apresentadora de TV chamada Angélica. Uma das competições mais populares foi a de mais bela estudante, em 1969, cuja final foi no estádio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.
Algo que será para sempre associado ao velho Abelardo Chacrinha Barbosa serão os bordões. Os mais utilizados eram "Vocês querem bacalhau?" (Chacrinha realmente atirava um bacalhau para a platéia) e "Alô, Terezinhaaaaa!". Os outros não menos famosos bordões eram: "Quem não se comunica se trumbica", "Na televisão nada se cria, tudo se copia", "Eu vim para confundir e não para explicar" e "Vai levar o troféu abacaxi".
Além do júri (muitas vezes composto por astros da TV, como Tarcísio Meira e Glória Menezes) do concurso de calouros e da platéia, que participava ativamente do programa, Chacrinha contava com um time de dançarinas apelidadas de chacretes. Vestidas com um figurino colorido e sensual, as chacretes ajudavam a animar do público e a chamar a atenção do telespectador masculino para o programa. As mais famosas foram Fernanda Terremoto, Suely Pingo de Ouro, Fátima Boa Viagem, India Poti e Rita Cadillac. A popularidade de Rita era tamanha que, segundo contou Drauzio Varella em seu livro Carandiru, ela foi convidada a se apresentar para os presos do conhecido complexo penitenciário da Zona Norte de São Paulo. Rita também chegou a gravar alguns discos, um deles com a famosa música É Bom Para a Moral.
No retorno a TV Globo no início dos anos 1980, Chacrinha se emocionou ao receber no palco o velho amigo Roberto Carlos. A verdade é que Roberto foi apenas uma das centenas de estrelas que se apresentaram nos programas comandados pelo velho Chacrinha. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Ney Matogrosso e Fábio Jr. foram alguns dos grandes nome da MPB a botar o pé no programa. Ídolos populares do calibre de Gretchen, Gilliard, Odair José, Amado Batista, Almir Rogério (do megasucesso Fuscão Preto), Vanusa e Silvio Brito e Joelma também foram extensivamente divulgados por Chacrinha.
Abelardo Chacrinha Barbosa faleceu em 1988. Meses antes, ele tinha se afastado do programa por motivos de saúde, sendo substituído por apresentadores como João Kleber e Paulo Silvino. Chacrinha tentou voltar ao comando de sua atração, mas não resistiu ao câncer no pulmão. Deixou um grande vazio na televisão brasileira. Muitos apresentadores vieram depois, mas nenhum com o carisma e, principalmente, irreverência do Velho Guerreiro.
Para terminar, uma curiosidade: quem o apelidou de Velho Guerreiro foi o cantor Gilberto Gil, que fez uma referência a Chacrinha na música Aquele Abraço.

17/02/2010

AS NOSSAS ROMÂNTICAS BALADAS DOS ANOS 70


Primeiramente, gostaria de perguntar se você lembra do Jackson Five. Eu imagino que sim, pois, com a morte de Michael Jackson na segunda metade de 2009, falou-se muito do grupo. Foi no Jackson Five que Michael inicou a carreira. E foi ouvindo I'll Be There que nós começamos a namorar. O Jackson foi muito popular entre o final dos anos 60 e início dos 70. Você gostava muito de Michael e não passava um dia sem ouvir suas músicas.
1970 foi o primeiro ano do resto de nossas vidas. Foi quando começamos a namorar e quando comemoramos, todos juntos, a conquista da Copa do Mundo do México. Que festa! Eu, você, o Arnaldo, a Angélica, todos os nossos amigos estavam juntos.
Mas não era só do Jackson Five que você gostava. Os Beatles também tinham lugar no seu coração, como tem em minha memória. Foi com você que ouvi pela primeira Let it Be e Something. Você decorou a letra de Let it Be só para me impressionar. Quando ouvimos que John, Paul, George e Ringo tinham se separado, ficamos chocados. Mas guardamos os LPs para ouvi-los sempre que desejássemos.
O romantismo sempre foi sua marca registrada. Embora nem tanto quanto hoje, você adorava trilhas sonoras de novelas. De tanto ouví-lo, deve ter produzido crateras no disco de Selva de Pedra, de 1972. Sua música predileta era Rock and Roll Lullaby, de B. J. Thomas. Lembra de B. J. Thomas? Não tenho idéia do nome do cara - nem o significado do B. J. -, mas recordo que, ainda em 1970, você não parava de ouvir Raindrop Keep Fallin'on my Head e Long Ago and Tomorrow.
Dançamos de rostinho colado com How Can Mend a Broken Heart, do Bee Gees, e Skyline Pigeon, de Elton John. Aliás, Elton e o Bee Gees lembram muito (e até demais) os nossos saudosos e irrecuperáveis anos 70. As músicas de Elton foram muito populares. Eu gostava de Daniel e você, de Island Girl. Quanto ao grupo Bee Gees, eu curtia How Deep is Your Love e você, de Love so Right. Juntos, ouvíamos How Can Mend a Broken Heart.
O que terá acontecido a Roberta Flack e Carole King? Em relação a Carole King, dizem que ainda faz shows por aí. Quanto a Roberta Flack, não faço a menor idéia que fim levou? Foi na vitrola de sua casa que ouvi pela primeira vez The Closer I Get to You, de Roberta e Donny Hathaway.
Sua coleção de discos era imensa. Tinha o Semideus, Corrida do Ouro, Anjo Mau, Pecado Capital, Locomotivas, O Casarão e, recordo muitíssimo bem, Duas Vidas. Certa vez, eu levei o LP com a trilha internacional de Duas Vidas para casa. Era um dos discos mais românticos de sua coleção. Se a memória não estiver falhando, uma das músicas era You're So Tender, de Christian. Lembra de quando nosso conhecido ídolo sertanejo cantava em inglês? Lembra, a propósito, dos brasileiros que cantavam na língua do Tio Sam? Eu sempre pensei que Morris Albert fosse inglês, escocês ou norte-americano. Jamais imaginei que fosse brasileiro! Isso nunca passou pela minha cabeça. Morris estourou nas paradas com Feelings e She's My Girl.
Voltando a falar de Duas Vidas, eu gostava principalmente de Tonight the Night, do Rod Stewart, e I Never Cry, de Alice Cooper. Você ficou horrorizada quando, anos mais tarde, descobriu que ele tinha uma banda de rock pauleira. Para você, para mim e todos que curtiam as baladas românticas dos anos 70, Alice será para sempre associado a sucessos como You Gonna See Me Now e a citada I Never Cry. Por sua vez, Rod Stewart manteve a fama de romântico por mais tempo. É longa a lista desse britânico de cabelos espetados e voz rouca: You're my Heart, Sailing e Tonight the Night.
Entre tantas bolachas com trilhas de novelas, você guardava um do Carpenters. O que aconteceu com o disco do Carpenters? Você gostava tanto dessa dupla romântica. Only Yesterday, I Need to Be in Love e Please Mr. Postman eram as suas favoritas. Isto é, pelo menos as que eu lembro.
Não dá para esquecer do Carpenters e muito menos de Billy Paul, Barry White, Commodores e Rita Coolidge. Foi no Commodores que emergiu Lionel Ritchie que, na década seguinte, fez sucesso em carreira solo. Still, Three Times Lady e Easy foram os grandes hits do Commodores. "Easy like sunday morning", cantava Lionel. Qual trilha tinha a música We're all Alone, da Rita Coolidge? Pecado Capital ou Pai Herói? Imagino que seja Pecado Capital, pois de Pai Herói lembro apenas de Mirrors, de Sally Oldfield, You Gonna See Me Now, de Alice Cooper, You Need Me, de Anne Murray, e Allouette, de Denise Emmer. Denise era filha de Janete Clair, lembra? Bons tempos aqueles.
Todos - ou quase todos - sabem quem era Alice Cooper. Imagino que até as novas gerações conheçam Rod Stewart. Mas, e quanto a Demis Roussos? Ele cantava a nossa inesquecível Forever and Ever. E Chris DeBurgh, e sua romântica Flying? Você dizia que sentia vontade de chorar sempre que ouvia Flying. E quanto a Jean-Claude Borelly? A sua grudenta (sei que você não vai concordar comigo) Dolannes Melody embalou o romance de muitos casais apaixonados. E Samantha Sing? Ou será Samanta Song? Não recordo direito. Sei apenas que ela fez um sucesso relativo com Emotion, cantada em parceria com o Bee Gees.
Eu lembrei: We're all Alone fazia realmente parte da trilha sonora de Pecado Capital. É provável que tenha sido tema do casal de protagonistas Márcio e Lili. Dreamin', do Liverpool Express, era do mesmo disco.
Será que alguém lembra de David Castle e seu sucesso You're too Far Away? E Babe, do Styx, alguém lembra?
Não era só de música internacional que vivia o romantismo da década de 70. Você, por exemplo, ouvia bastante música brasileira. Roberto Carlos era um dos seus prediletos. Detalhes, Como Vai Você, Força Estranha e O Portão tocavam sem parar em sua casa. Você adorava Mania de Você, da Rita Lee, A Lua e Eu, do Cassiano... O que aconteceu com o Cassiano? Será que está vivo? Faz tempo que não ouço falar dele. Você gostava também do Guilherme Arantes. Meu Mundo e Nada Mais é, até hoje, a minha música predileta. Você era fissurada em Tranquei a Vida, de Ronnie Von e, vez ou outra, dava para escutar Cláudia Telles.
Lembro que os anos 70 terminaram ao som de Kenny Rogers (She Believes in Me), Gino Vannelli (I Just Wanna Stop), Dionne Warwidk (I'll Never Love this Way Again), Air Suply (Lost in Love), Jimmy Buffet (Survive) e K. C. & Sunshine Banc (Please, Don't Go). Foi quando nos casamos. Você fez questão de que The Winner Take it All, dos suecos do ABBA, tocasse em nosso casamento. De resto, lembro apenas de You and I, de Paul Anka e Meirelle Mathieu. Foi nossa última música romântica. A última trilha foi Coração Alado. Depois, vieram a casa, o trabalho, os filhos e, ano a ano, o romantismo foi ficando para trás.
Mas eu guardei os discos e a lembrança. E toda vez que ouço Bee Gees em Mp3, lembro de nós dois dançando juntos, coladinhos, apaixonados.

03/02/2010

TRILHAS DE NOVELAS - CURIOSIDADES


A primeira trilha foi a da novela Véu de Noiva, lançada pela gravadora Philips em parceria com a Rede Globo. A primeira com músicas estrangeiras foi a de O Cafona, lançada em 1971. Confira nas linhas a seguir mais algumas curiosidades sobre trilhas sonoras e de abertura de novelas.


A gravadora Som Livre foi lançada pelas Organizações Globo em 1971, justamente para lançar as trilhas das novelas da Rede Globo. O Cafona foi a primeira telenovela a ter a trilha sonora produzida pela Som Livre.

A Som Livre lança, no mínimo, duas trilhas por novelas. Em alguns casos, são lançados três trilhas, como ocorreu como Belíssima, Roque Santeiro e América.

Vários atores gravaram músicas para trilhas de novelas. Aconteceu com Cláudio Cavalcanti na novela Irmãos Coragem (a música era Menina); Marília Pêra, em O Cafona (música: Shirley Sexy); Sandra Bréa, em Corrida do Ouro (Nem Pensar); Sônia Braga, em Saramandaia (Sou o Estopim); e Glória Pires, em As Três Marias (Coração).

No início, eram comuns as trilhas compostas especialmente para as novelas. A trilha de O Bofe, por exemplo, foi encomendada a Erasmo Carlos e Roberto Carlos. No de O Bem-Amado, as músicas foram feitas inteiramente por Toquinho e Vinicíus de Moraes.

A maioria das canções da novela O Rebu foram compostas pela dupla Raul Seixas e Paulo Coelho. O Rebu foi lançada em 1974, época de ouro da carreira de Raul Seixas.

A música Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, foi tema de abertura de uma novela e uma minissérie. São elas Sem Lenço, Sem Documento (1977) e Anos Rebeldes (1992).

Rita Lee foi, sem sombra de dúvida, um dos cantores/compositores que mais tiveram músicas em trilhas e aberturas de novelas globais. Suas músicas foram tocadas nas aberturas de O Pulo do Gato, Chega Mais, Baila Comigo e outras.

O responsável pela pesquisa musical, trilha sonora e abertura da novela Bravo! foi o maestro Júlio Medaglia. Antes, Medaglia tinha trabalhado na trilha de O Noviço. As músicas de Bravo! eram inteiramente baseadas em trechos de concertos de Chopin, Beethoven e outros compositores clássicos. O sucesso foi tão grande que, mais tarde, a Som Livre lançaria mais dois discos de música erudita usando o nome da novela. Um detalhe importante: Bravo! teve outra trilha com músicas brasileiros, inclusive de Rita Lee.

O primeiro samba em abertura de novelas foi Pecado Capital, de autoria de Paulinho da Viola. O interessante é que Pecado Capital foi composta apenas 24 horas depois de o produtor Guto Graça Mello ter encomendado o tema para Paulinho da Viola. Outro detalhe interessante é que a música não costa em nenhum dos álbuns de Paulinho, sendo lançada apenas em coletâneas posteriores à novela.

A novela Mandala teve uma trilha sonora complementar chamada As Preferidas de Tony Carrado. Interpretado por Nuno Leal Maia, Tony Corrado era um homem piegas e de gosto duvidoso. Entre as músicas de As Preferidas… estavam Estrada do Coração (de Agepê) e Eu Já Tirei a Sua Roupa (Wando).

(Fonte: Memória Globo)

28/01/2010

SUZI QUATRO E AS MULHERES DO ROCK


Foi lançado nos Estados Unidos no início de 2010 o filme The Runnaways. Baseado na história da banda de mesmo nome, The Runnaways conta, de certa forma, a trajetória de sua líder, a roqueira Joan Jett.
Joan foi (e continua sendo) uma das mulheres de maior popularidade no cenário tipicamente masculino do rock’n’roll. Mas não foi a única, nem a primeira. As pioneiras surgiram juntamente com o rock. No entanto, foi Suzi Quatro a primeira a se aventurar no universo do rock pesado.
A baixista e cantora Suzi Quatro lançou Rolling Stone, seu primeiro single em 1972. No ano seguinte, Suzi lançaria seu hit de maior sucesso 48 Crash, música que levou muitos adolescentes a embarcar no mundo sem volta do rock pesado. Os jovens da época diziam que era uma música “quente” . Quem curtiu o rock dos anos 70 deve se lembrar de sucessos como Can the Can e If You Can Give me Love.
Suzi Quatro já era uma veterana quando Joan Jett iniciou a carreira. Liderada por Joan, o grupo The Runaways (traduzido literalmente como As Fugitivas), apareceu na segunda metade dos anos 1970. Tocava uma espécie de punk rock e teve outra roqueira famosa entre suas integrantes: Lita Ford. Infelizmente (ou, felizmente, dependendo do ponto de vista), o The Runnaways não durou muito, encerrando as atividades em 1979. Foi na mesma época em que o Led Zeppelin desaparecia do cenário musical.
Se Robert Plant e Jimmy Page continuaram em carreiras separadas, sem o Zeppelin, Joan Jett prosseguiu sem o The Runaways. Em 1980, ela fundou o The Blackhearts, sua nova banda. No início, as coisas não foram fáceis para Joan e o The Blackhearts. Eles bateram de porta em porta, sem conseguir contrato com nenhuma gravadora. Determinada, Joan mandou as gravadoras às favas e se tornou a primeira mulher a fundar a sua própria gravadora.
Em 1982, a banda Joan Jett and The Backhearts estreou a música I Love Rock’n’Roll, o seu maior hit. O sucesso de I Love Rock’n’Roll foi instâneo. Sua popularidade foi tamanha que, no Brasil, fez parte até de trilha sonora de novela da Rede Globo.
Lita Ford não ficou famosa somente pelas músicas que gravou, mas por seu envolvimento com alguns dos mais conhecidos roqueiros do cenário musical dos anos 80, como Chris Holmes (W.A.S.P.), Tomy Iommi (Black Sabath) e Nikki Sixx (Mötley Crue). Antes de ingressar na carreira solo, Lita participou da The Runnaways com Joan Jett. Seu maior sucesso foi I Close my Eyes Forever, de 1988.
É impossível falar do universo roqueiro sem citar Wendy O. Williams, a líder da banda punk Plasmatics. Mais conhecida no cenário underground, Wendy fazia jus ao estilo rebelde do punk. Usava roupas agresivas e penteado ao estilo moicano. Em 1985, foi indicada ao Grammy de melhor vocal feminino de rock. A banda Plasmatics durou 10 anos. Wendy morreu em 1998.
Surgido em 1978, o grupo Girlschool conseguiu fazer bonito na cena metaleira dos anos 1980. Formado por Kim McAuliffe, Denise Dufort, Kelly Johnson e Enid Williams, o Girlschool lançou seu primeiro disco no ano de 1980. Seu maior incentivador (e, de certa forma, padrinho) foi Lemmy Kilmister, do Motörhead (com quem gravaram o hit Please, Don’t Touch). Aliás, o Motörhead também deu uma força para as meninas do The Runaways. Os principais discos do Girlschool foram Hit the Run e Demolition.
A verdade é que as mulheres ultrapassaram os limites do hard rock, heavy metal e punk. Elas também apareceram com força e fizeram história no pop, grunge e outros estilos. Quem não recorda da banda Siouxssie & The Banshees e do grupo Hole (de Courtney Love, viúva de Kurt Cobain)? E quem não lembra dos conjuntos Bananarama, The Go-go’s e Spice Girl? Mesmo as bandas mistas contaram com grandes vocalistas femininas, a exemplo de Chrissie Hynde (The Pretenders), Annie Lennox (Eurythmics) e Martha Davis (The Motels). As cantoras de maior aceitação no período 80/90 pertenciam à cena pop, como Cindy Lauper, Tina Turner e a imbatível Madonna.
Em se tratanto de música brasileira, é sempre bom lembrar de Rita Lee. Rita começou com a banda Mutantes, partindo mais tarde para a carreira solo. O auge de sua carreira ocorreu na década de 1980. Na época, surgiram inúmeros grupos de pop e rock com forte presença feminina, a exemplo de Afrodite Se Quiser, Metrô (da bela vocalista Virginie), Sempre Livre, Blitz e Gang Noventa e as Absurdetes.
O maior nome do rock brasileiro da década seguinte, foi sem dúvida Cássia Eller. Mas, ela bem que merece um capítulo à parte no Modas e Manias.

18/01/2010

25 ANOS DE ROCK IN RIO


Os anos 80 serão lembrados como a década da new wave. Conjuntos musicais como The Pretenders, The Smiths e New Order estavam no auge do sucesso. Idem para os grupos Echo and the Bunnymen e The Cure. Quem viveu os anos 80 deve se lembrar das músicas Boys Don't Cry e In Between Days do The Cure. Mas não foi só a new wave que esteve "na crista da onda". A década de 80 também foi crucial para o heavy metal. Marcado por guitarras estridentes e baterias pesadas (ouçam Metal Church, do grupo de mesmo nome), o metal viveu dias de glória. Deff Leppard, Iron Maiden, Saxon, Kiss, Motörhead, Scorpions, Whitesnake, AC/DC e Van Halen - só para citar alguns grupos - levavam milhares de garotos e garotas a comprarem LPs aos montes na Galeria do Rock e na loja Woodstock Discos, em São Paulo. Mas havia quem preferisse o rock brasileiro. Nunca, em toda a história, o rock tupiniquim produziu tantos grupos e vendeu tantos discos. Alguns desses grupos (ou sobreviventes) continuaram na ativa por décadas, caso do Ira!, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs e Kid Abelha. Mas, se perguntarmos o que marcou os anos 80 para alguém com mais de 35 anos, ele responderá: o Rock in Rio.
Realizado em janeiro de 1985, o Rock in Rio foi o maior festival de música até então ocorrido no Brasil. Foram 10 dias de shows, totalizando 90 horas de música. Entre atrações nacionais e internacionais, se apresentaram 29 cantores e grupos. O recorde de público foi no segundo (12/01), antepenúltimo (18/01) e penúltimo dia (19/01). Compareceram, em cada um desses dias 250 mil pessoas.
Como o próprio nome indica, o Rock in Rio ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, entre 11 e 20 de janeiro de 1985. Para abrigar o palco, tendas com lanchonetes e lojas e, obviamente, o espaço para o público, foi construída a chamada Cidade do Rock.
Os números do Rock in Rio impressionam até hoje. O público estimado dos 10 dias de shows foi de 1,30 milhão de pessoas. Foram consumidos 900 mil sanduíches, 500 mil fatias de pizza, 7,5 mil quilos de macarrão e mais de 1,5 mil litros de refrigerante. Dizem que, em um só dia, o McDonald's da Cidade do Rock vendeu quase 60 mil hamburgueres. Provavelmente por causa de toda essa comilança, foram usados 120 mil quilômetros de papel higiênico.
Os fãs de heavy metal foram o público mais representativo do Rock in Rio. Chamados de "metaleiros" pelos repórteres do Jornal Nacional e Fantástico, eles invadiram a Cidade do Rock para assistir as apresentações do Iron Maiden, Whitesnake, AC/DC, Scorpions e Ozzy Osbourne. Os shows mais memoráveis foram os da chamada "noite dos metaleiros", em 19 de janeiro. Whitesnake, Ozzy Osbourne, Scorpions e AC/DC se apresentaram na mesma ocasião, para a alegria dos metaleiros - que, na verdade, execravam o termo e se autodenominavam headbangers.
À princípio, alguns dos grupos convidados para tocar no Brasil, temeram pelo sucesso do festival. Mas a quantidade de nomes famosos era tamanha que os receios logo se dissiparam. O festival recebeu cobertura completa da imprensa daqui e do exterior. A repercussão foi estrondosa. Os shows foram transmitidos no final da noite pela Rede Globo.
A Cidade do Rock foi desmontada logo que terminou o festival. A chiadeira do então governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola e os problemas oriundos da desmontagem da Cidade foram alguns dos fatores que contribuíram para a demora para a realização do segundo Rock in Rio. Mas não tardou para que o Rio de Janeiro abrigasse a segunda edição do festival.
O Rock in Rio II ocorreu entre 18 e 26 de janeiro de 1991. Ocorreu no estádio do Maracanã, o que dispensou a montagem de uma segunda Cidade do Rock. A terceira versão do evento só aconteceria 10 anos depois, em 2001, dessa vez com uma nova "especialmente" montada para os shows.
Idealizado pelo empresário Roberto Medina, o Rock in Rio ganhou inúmeras versões ao longo da primeira década dos anos 2000, quase todas no exterior. Foram três em Portugal e uma na Espanha. Prevê-se mais duas edições do festival em terras portuguesas e espanholas em 2010. Atualmente corre o boato de uma nova edição brasileira em 2011, a pedido da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro.
Para lembrar os 25 anos do primeiro Rock in Rio, segue a lista dos cantores e grupos que se apresentaram nos 10 dias do evento:

Primeiro dia (11/01/85) - Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Erasmo Carlos, Ney Matogrosso, Whitesnake, Iron Maiden e Queen.

Segundo dia (12/01/85) - George Benson, Al Jarreau, James Taylor, Gilberto Gil, Ivan Lins e Elba Ramalho.

Terceiro dia (13/01/85) - Os Paralamas do Sucesso, Blitz, Lulu Santos, Nina Hagen, The Go-go's e Rod Stewart.

Quarto dia (14/01/85) - Alceu Valença, Moraes Moreira, George Benson e James Taylor.

Quinto dia (15/01/85) - Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, Barão Vermelho, Eduardo Dusek, Scorpions e AC/DC.

Sexto dia (16/01/85) - Rod Stewart, Ozzy Osbourne, Rita Lee, Moraes Moreira e Os Paralamas do Sucesso.

Sétimo dia (17/01/85) - Alceu Valença, Elba Ramalho, Yes e Al Jarreau.

Oitavo dia (18/01/85) - Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Lulu Santos, Eduardo Dusek, The Go-go's, The B-52's e Queen.

Nono dia (19/01/85) - Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Whitesnake, Ozzy Osbourne, A/DC e Scorpions.

Décimo dia (20/01/85) - Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Barão Vermelho, Blitz, Nina Hagen, The B-52's e Yes.

02/12/2009

1978, O ANO DA DISCO MUSIC


Demorou, mas Lucília conseguiu. Finalmente a decoração de Natal da residência dos Arantes estava pronta. Faltava comprar os presentes, principalmente os das crianças, do marido e dos pais. Isabel queria a boneca Pepa, que estava em falta no mercado. Cristina desejava uma colônia da Avon e um par de meias de luréx. Mas, o presente mais fácil seria o de Jorginho: o disco com a trilha sonora internacional da novela Dancin’ Days. Com 13 anos recém-completados, Jorge agora era um adolescente. Ao invés de brinquedos, desejava roupas de presente. Mas, entre uma camisa US Top e o LP de Dancin’ Day, dessa vez ele optou pelo último.
Lucília estava determinada a comprar o LP, mesmo se Jorginho não pedisse. As novelas O Astro e Dancin’Days foram os maiores sucessos de 1978, principalmente esta última. Com Dancin’ Days, Gilberto Braga surfava na onda da discoteca.
Lucília tinha dúvida se as discotecas vieram para ficar ou eram apenas uma moda passageira. O fato é que todos queriam surfar na mesma onda de Gilberto Braga, autor da novela. Até onde lembrava, ela “arrebentou” com o filme Os Embalos de Sábado à Noite, com John Travolta. Aliás, todo garoto queria ser ou ter um pouco de John Travolta. Até Jorginho arriscara alguns passos parecidos com os de Travolta. Ao som de Bee Gees, é claro.
Pensando bem, John Travolta era um gato. E dançava como ninguém. Lucília não acreditava que era o mesmo ator daquele filme do garoto que vivia em uma bolha de plástico. Como era mesmo o nome do filme? O Menino da Bolha de Plástico? Podia ser.
O filme de maior sucesso de 1978 foi a Dama do Lotação, com ninguém menos que Sônia Braga. Lucília não entendia como um filme daqueles podia fazer tanto sucesso. Tudo bem que Sônia Braga era uma grande atriz, mas o filme não era lá essas coisas, não. Ela gostou mesmo foi de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Esse, sim, é que era filme bacana. Além de A Dama do Lotação e Contatos Imediatos, Lucília e o marido assistiram Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (com Reginaldo Faria, que atuava em Dancin’ Days com Sônia Braga) e Noivo Neurórica, Noiva Nervosa. Todos falavam de Guerra nas Estrelas, mas não era possível que fosse tão bom assim. Guerra nas Estrelas tinha cara de filme para adolescente. E se havia uma coisa que Lucília detestava era muito barulho, explosão, “pá-pum”, essas coisa todas… a vontade era de sair do cinema no meio da sessão.
Lucília ainda estava em dúvida sobre qual presente pediria ao marido. Cristina também prometeu um presente. Nesse caso, pediria dois livros. Ela estava louca para ler O Navegante, de Morris West. Mas, pensando bem, Ninguém é uma Ilha e Ainda Resta Uma Esperança, ambos de J. M. Simmel, pareciam interessantes. Tinha também Raízes, do Alex Haley! Como conhecia a minissérie baseada no épico de Haley, Lucília tinha interesse em ler o livro.
Estava decidido: pediria Raízes para o marido e o LP de Os Embalos de Sábado à Noite para Cristina. Lucília adorava a trilha do filme do Travolta, principalmente por causa do Bee Gees. Eles eram demais! Suas músicas prediletas eram Night Fever e Stayn’ Alive.
Bem que o réveillon dos Arantes podia ter Bee Gees como trilha. Melhor: Lucília pegaria alguns discos emprestados da Odete, sua vizinha e faria uma discoteca em casa. Odete tinha vários discos da K-Tel, quase todos com músicas de discoteca. Eram discos como Hit Machine, Disco Fire e Music Machine. Os grupos e cantores “disco” de maior sucesso eram Chic, Sylvester, K.C. & Sunshine Band, Village People, As Frenéticas e Donna Summer. Aliás, o Disc Machine tinha uma música maravilhosa do Morris Albert, aquele brasileiro que cantava em inglês.
Terminada a decoração, faltava dar um jeito na sala. Que bagunça! Lucília precisava organizar os fascículos do Jorginho – ele deu para comprar coleções da Abril Cultural -, os LPs da Cristina (que “amava de paixão” a trilha sonora da novela Estúpido Cúpido, transmitida há pouco tempo pela Globo) e as revistas do marido. Quanta revista! A maioria era Quatro Rodas. Ele estava interessado em comprar um Fiat 147 para substituir o velho Fusca 1500. Lucília preferia automóveis da Volkswagen, talvez uma Variant II ou um Passat. Jorginho e Cristina tentavam fazer a cabeça do pai para que ele comprasse aquele novo Passat, o Surf. Ora, mas o Passat Surf foi feito para o público jovem, não para um senhor de família! O marido insistia no 147 por que era um carro novo, de uma marca nova, desculpas para comprar o carro não faltavam.
Pensando bem, 1978 não foi um ano muito difícil. Dez anos depois da promulgação do Ato Institucional nº 5, o governo dava sinais de que relaxaria a censura. Quer dizer, o regime militar estava, ainda que aos poucos, se tornando mais brando. Quando voltaremos a eleger um presidente? – perguntava Lucília. O assunto do momento nas rodinhas era a anistia política. O povo também não parava de falar no substituto do presidente Geisel. E a morte dos papas? Nunca ocorreu algo semelhante: dois papas mortos no mesmo ano. Quem imaginaria que João Paulo I, substituto do recém-falecido Paulo VI faleceria apenas 30 dias depois de eleito papa? E quem imaginaria que um polonês substituíria João Paulo I? Lucília lembrava que o nome dele era Karol alguma coisa. Um papa polonês. Fazia séculos que a igreja não escolhia um papa não-italiano. João Paulo II, o novo pontífice, parecia simpatico. Se vier ao Brasil, Lucília faria questão de vê-lo pessoalmente. Um papa polonês. Como era simpatico! “Deviam chamá-lo de João de Deus”, pensou.
1978 será para sempre lembrado como o ano da Copa do Mundo da Argentina. O Brasil tinha tudo para ser campeão, só que quem levou a taça foram os anfitriões. Mas, para Lucília, era o ano de Dancin’ Days, das Frenéticas, de Os Embalos de Sábado à Noite, John Travolta e Bee Gees.
Era tarde, havia revistas para organizar, um chão para limpar e a janta por fazer. Os filhos logo estariam em casa.
A decoração até que ficara bonita. Mas, a de 1979 seria melhor e ainda mais bonita. Lucília tinha esperança de que o novo ano seria o prenúncio de tempos melhores. De preferência com a onda disco. Ela não podia ser assim tão passageira.